Quem tem doença arterial nas pernas ou varizes ouve do cirurgião vascular a mesma receita: caminhar todos os dias. O difícil é continuar. A caminhada é monótona, a perna dói ou pesa, e em poucas semanas o tênis volta para o armário. Uma ajuda barata e estudada é a música. Ela não trata a artéria nem a veia, mas pode fazer você andar mais e desistir menos, e a constância é o que traz o resultado.
Por que caminhar é tratamento, e não só conselho
Na doença arterial periférica, as placas de aterosclerose estreitam as artérias das pernas. Ao andar, a panturrilha pede mais oxigênio do que chega, e aparece a dor que obriga a parar: a claudicação intermitente. O treino de caminhada é uma das bases do tratamento, recomendado pelas diretrizes internacionais, porque aumenta a distância que a pessoa consegue andar e melhora a qualidade de vida (Harwood et al., 2020).
Nas varizes, o motivo é outro. A panturrilha funciona como uma bomba: cada passo espreme as veias e empurra o sangue de volta para o coração. Caminhar alivia o peso e o inchaço no fim do dia, como explicamos em A caminhada e as varizes.
Nos dois casos, o efeito depende de semanas e meses de treino. E é aí que muita gente para.
O problema real é a adesão
Uma revisão sistemática que reuniu 122 grupos de exercício em pacientes com claudicação encontrou adesão de 77,6% nos programas tradicionais de caminhada e de 85,5% nas modalidades alternativas. Os autores atribuem parte da diferença à dor que a caminhada tradicional provoca (Lin et al., 2019). Fora dos estudos, sem ninguém cobrando, a adesão costuma ser menor ainda.
Qualquer coisa que torne a caminhada menos penosa e mais agradável trabalha a favor do tratamento. A música é a mais fácil de testar.
O que os estudos mostram sobre música e exercício
A maior metanálise sobre o tema reuniu 139 estudos e quase 3.600 participantes. Ouvir música durante a atividade física melhorou o humor durante o esforço, aumentou um pouco o desempenho e reduziu a sensação de esforço. A frequência cardíaca não mudou. Músicas mais rápidas tiveram efeito maior sobre o desempenho (Terry et al., 2019).
Dois detalhes importam para quem caminha:
- A música que você gosta funciona melhor. Música escolhida pela própria pessoa aumentou a motivação e diminuiu a sensação de cansaço mais do que músicas impostas ou o silêncio (Niering et al., 2025).
- O efeito aparece mais no exercício leve e moderado. Num estudo com caminhada em esteira, a música reduziu a sensação de esforço mais na caminhada do que no treino de força pesado (Patania et al., 2020). Caminhada é justamente esse tipo de exercício.
Uma ressalva honesta: sentir menos esforço não quer dizer que o corpo trabalhou menos. A música muda a percepção, e o treino continua valendo como treino.
E na claudicação? Um estudo testou o ritmo da música
Um grupo de pesquisadores fez 14 pacientes com claudicação caminharem três vezes no mesmo dia, em ordem sorteada: sem música, com música no ritmo habitual dos passos e com a mesma música acelerada em 10 a 15 batidas por minuto, uma diferença que o ouvido leigo nem percebe. Com a música acelerada, eles andaram em média 22 metros a mais em 6 minutos, e a distância até a dor limitar a caminhada aumentou cerca de 40 metros em relação ao silêncio (Bronas et al., 2017).
É um estudo pequeno e de um único dia, que mostra viabilidade, não benefício comprovado a longo prazo. Mas combina com outro dado: programas caseiros em que o paciente caminha em ritmo marcado, com metrônomo, de forma progressiva e sem forçar a dor, melhoraram a distância de caminhada e até o índice tornozelo-braquial (Manfredini et al., 2024). Um ritmo externo ajuda a manter o passo. A música faz o mesmo papel do metrônomo, só que mais agradável.
Assista: o que é a dor ao caminhar e por que ela pede avaliação
Como usar a música na sua caminhada
- Converse antes com o seu cirurgião vascular. O tipo de treino (até a dor moderada ou sem dor), a duração e a frequência dependem do seu caso.
- Descubra o seu ritmo. Caminhe no seu passo normal e conte quantos passos dá em 15 segundos. Multiplique por 4: essa é a sua cadência, em passos por minuto.
- Escolha músicas um pouco mais rápidas que o seu passo. Para quem tem claudicação, algo como 10 a 15 batidas por minuto acima da sua cadência, como no estudo. Aplicativos de música e de corrida mostram as batidas por minuto (BPM) e montam listas por ritmo.
- Prefira as músicas de que você gosta. Esse é o fator mais consistente nos estudos.
- Respeite a dor da claudicação. A música pode atrasar o momento em que você percebe o cansaço, mas não muda a circulação. Quando a dor chegar ao ponto combinado com o médico, pare, descanse e retome.
- Cuidado na rua. Volume baixo ou fone que deixa passar o som do ambiente, principalmente ao atravessar e em calçadas irregulares.
Alguns sinais não pedem playlist, pedem consulta: dor na perna em repouso ou à noite, feridas nos pés que não cicatrizam, pé frio, pálido ou arroxeado. Veja dor na perna à noite para entender quando a doença arterial ficou grave.
A música também conta nos nossos vídeos
A pergunta sobre música não vale só para o exercício. Gravamos muitos vídeos de educação em saúde e quisemos saber se a trilha de fundo ajuda ou atrapalha quem assiste. Fiz uma revisão sistemática com metanálise sobre música de fundo em vídeo: ela aumenta a atenção do espectador, e só atrapalha a memorização quando compete com a narração. Hoje as trilhas dos nossos vídeos são feitas no Scora, uma ferramenta de trilha sonora por IA que eu fundei. Fica a declaração de interesse: o Scora é um projeto meu.
Resumo
- Caminhar é tratamento na doença arterial periférica e alívio nas varizes, mas só funciona se for constante.
- A música reduz a sensação de esforço e melhora o humor durante o exercício, sobretudo quando é a música de que você gosta.
- Na claudicação, um estudo pequeno mostrou que música um pouco mais rápida que o passo aumentou a distância caminhada.
- Ela é um apoio para manter o treino, não substitui avaliação, tratamento nem o controle de cigarro, pressão, diabetes e colesterol.



