Gestrinona funciona no lipedema? Essa é uma das perguntas que mais recebo — e, felizmente, ela não precisa ser respondida com opinião. Nós fomos verificar cientificamente, e o resultado está publicado.
O que é a gestrinona
A gestrinona é um esteroide sintético, com ação androgênica e antiprogestagênica, aprovado originalmente apenas para o tratamento da endometriose, por via oral. Nos últimos anos, passou a ser oferecida a mulheres com lipedema — com frequência na forma de implantes subcutâneos manipulados — como se fosse um tratamento estabelecido para a doença.
O que a ciência realmente mostra
Para responder a essa pergunta com rigor, publicamos em 2025, na revista Cureus, uma revisão sistemática (Amato AC, Amato JS, Benitti D) — o tipo de estudo considerado o mais rigoroso para sintetizar evidência disponível.
Buscamos em quatro grandes bases de dados médicas internacionais (PubMed, MEDLINE, Cochrane Library e LILACS), em dois registros de ensaios clínicos (ClinicalTrials.gov e ReBEC), no Google Acadêmico, e ainda analisamos diretrizes clínicas de sociedades médicas do Brasil e do mundo.
O achado foi a ausência completa: nenhum estudo avaliou o uso da gestrinona no tratamento do lipedema. Nenhum ensaio clínico. Nenhuma pesquisa observacional. Nem sequer um relato de caso. As poucas publicações que mencionavam os dois temas eram textos teóricos, sem dados de pacientes reais — e algumas haviam sido publicadas em revistas predatórias, que cobram pela publicação sem crivo científico rigoroso.
Não é que a pesquisa foi feita e o tratamento falhou. É que a pesquisa nunca foi feita. Nunca se testou se funciona — nem se é seguro para essa finalidade.
Situação regulatória no Brasil e no esporte
- ANVISA: não há registro vigente para a gestrinona no Brasil — as duas formulações orais foram canceladas em 2012 e 2014.
- WADA (Agência Mundial Antidoping): a substância consta da lista de proibidas, justamente por suas propriedades anabólicas.
O que dizem as sociedades médicas
- A Associação Brasileira de Lipedema (ABL) publicou nota oficial contrária ao uso, por ausência de evidências científicas.
- A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) afirma não haver evidências de qualidade sobre a eficácia e a segurança dos implantes de gestrinona.
Riscos conhecidos
Por ser um esteroide com ação androgênica, os efeitos adversos descritos incluem alterações hepáticas, distúrbios cardiovasculares, alterações psiquiátricas e virilização em mulheres (engrossamento da voz, aumento de pelos, entre outros).
Há ainda um ponto pouco comentado e especialmente importante: quando a substância é manipulada para uso em implante subcutâneo, não existem estudos farmacocinéticos — ou seja, não se sabe como o corpo absorve, distribui ou elimina a gestrinona por essa via.
Então, o que tem evidência de verdade?
O lipedema tem, sim, tratamento — e ele é multifacetado e personalizado. As abordagens com respaldo científico incluem terapia compressiva, terapia descongestiva complexa (com drenagem linfática e cuidados com a pele), exercícios adaptados de baixo impacto, orientação nutricional anti-inflamatória e, em casos selecionados, a lipoaspiração com preservação linfática — sempre após o controle clínico da doença.
Veja em detalhe: como é o tratamento do lipedema. E se a sua dúvida é sobre medicamentos em geral, veja também os sinais para a detecção do lipedema.
O lipedema merece tratamentos sérios, testados e seguros — e quem convive com ele merece informação honesta.
Referência: Amato AC, Amato JS, Benitti D. Lack of Scientific Evidence for the Use of Gestrinone in the Treatment of Lipedema: A Systematic Review. Cureus, 2025. Análise completa no site da Associação Brasileira de Lipedema.
Veja também: existe remédio para lipedema? — o que os medicamentos podem e não podem fazer.



