Cúrcuma e circulação: funciona para artérias, não para varizes

Amato Duo
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A cúrcuma tem efeito anti-inflamatório comparável ao de alguns anti-inflamatórios não esteroidais — mas como tempero ela quase não é absorvida. O princípio ativo é a curcumina, e boa parte do que você ingere sai nas fezes do jeito que entrou.

E há uma separação que quase ninguém faz: para a doença arterial o uso profilático faz sentido; para varizes e doença venosa, não existe literatura que sustente o uso.

O que é a curcumina

A curcumina é o principal bioativo da Curcuma longa — o açafrão-da-terra, também chamado de gengibre amarelo, aquele rizoma bem amarelo por dentro. É rico em polifenóis, e a classe mais importante aqui são os curcuminoides. Como tratamento, a cúrcuma já era usada há mais de 3 mil anos.

O efeito anti-inflamatório

É o mais conhecido, e alguns trabalhos mostram efeito comparável ao de anti-inflamatórios não esteroidais e até de alguns derivados de corticoide — com a vantagem de uma toxicidade baixíssima.

O mecanismo é complexo. A curcumina age sobre as citocinas pró-inflamatórias e inibe a migração dos macrófagos; inibe o TNF-alfa (fator de necrose tumoral) e a interleucina 6. E modula o sistema imune — não “aumenta a imunidade”: deixa a resposta na intensidade correta, nem mais nem menos. Estudos mostram aumento dos marcadores anti-inflamatórios e queda dos pró-inflamatórios.

Vale a distinção: a inflamação aguda é boa, gera reparo do tecido. A inflamação crônica é que faz mal.

O efeito antioxidante

Anda junto com o anti-inflamatório. A curcumina reduz as espécies reativas de oxigênio e preserva a função mitocondrial — a organela responsável pela respiração e pela energia celular. Faz isso aumentando a superóxido dismutase, reforçando a defesa antioxidante do corpo.

O que ela faz na parede do vaso

  • Reduz o enrijecimento da parede vascular — justamente o processo de evolução da aterosclerose. O efeito é mais benéfico quando a curcumina é consumida junto com exercício físico.
  • Efeito anti-apoptótico: a apoptose é a morte programada da célula, e a curcumina posterga esse relógio. Demonstrado nos cardiomiócitos, as células musculares do coração.
  • Melhora do colágeno e da elastina, as duas estruturas principais da parede do vaso — cuja falha leva à fragilidade e à formação de aneurismas.
  • Em pacientes com diabetes, melhora de vários parâmetros hemodinâmicos, já demonstrada em pesquisa.

Não é sem risco

Por ser um tempero de supermercado, presume-se toxicidade zero — e não é bem assim. Alguns trabalhos mostraram alteração do intervalo QT, ou seja, da parte elétrica do coração. Tanto que se propôs associá-la a outra medicação, e surgiram nanoformatos e moléculas carregadoras que liberam a curcumina de forma mais controlada para evitar esse efeito.

Arterial sim, venosa não

A má circulação divide-se em arterial — basicamente as doenças ateroscleróticas — e venosa. Toda a fisiopatologia descrita acima é da doença aterosclerótica, que está nas artérias, não nas veias.

Logo: o uso profilático da curcumina para doença arterial faz sentido. Para doença venosa e varizes, a busca na literatura científica não encontrou nada. Pelo modo como a curcumina age, é plausível que reduza um pouco a fase inflamatória da doença venosa e alivie sintomas — mas não previne a doença, que é mais ligada à genética.

Como usar: a questão da biodisponibilidade

Como tempero, o efeito é fraco — seria preciso colocar em toda a alimentação para absorver o suficiente. Para uso controlado, a via é o suplemento ou a manipulação, geralmente com piperina, que aumenta a absorção da curcumina.

Nos estudos de saúde vascular, a dose diária vai de 150 a 2.000 mg, com a maioria dos trabalhos entre 200 e 600 mg/dia. Para prevenção, algo em torno de 500 a 600 mg com cerca de 10 mg de piperina é suficiente para boa absorção; para 2 g diários, cerca de 40 mg de piperina.

Uma correção necessária: há quem relate 3 ou 4 gramas de curcumina em tratamento. Isso não está embasado em literatura nenhuma — os trabalhos vão até 2 gramas diários.

Fora isso, a cúrcuma é saborosa e pode ir no tempero da comida da família sabendo que faz bem. Veja também os sinais de má circulação e os alimentos anti-inflamatórios.

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