Lipedema não é um tumor de gordura.

Tumor de gordura
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O lipedema foi descrito pela primeira vez em 1940 pelos doutores Edgar Van Nuys Allen, cirurgião cardiovascular conhecido pelo teste de Allen, e Edgar Alphonso Hines Jr. na Mayo Clinic na sessão Vascular Clinics, e, hoje nomeia a síndrome de Allen-Hines. Desde então o lipedema foi caracterizado como uma deposição anormal de gordura em glúteos e pernas bilateralmente que pode ser acompanhada por edema ortostático.

A palavra tumor, significa “Termo genérico para indicar aumento de volume localizado; crescimento mórbido de tecido; neoplasma.”. Se refere a um crescimento contido em determinado espaço e não a um crescimento difuso, como no lipedema.

Mas existe então um tumor de gordura? Certamente que sim: existem tumores malignos e benignos de gordura que são bem estudados e bem classificados na medicina.

Os tumores de gordura benignos são os lipomas (CID D17). Lipoma é um tumor benigno, composto por células de tecido adiposo (adipócitos), que se acumulam dentro de uma cápsula fibrosa logo abaixo da pele, no tecido subcutâneo. Algumas pessoas se referem a eles como “bolinhas de gordura”. Essa capsula fibrosa define o espaço circunscrito onde se localiza esse tumor. Não é lipedema (CID E65). Essa diferenciação se faz primordial para o tratamento correto, pois são doenças completamente diferentes com abordagens terapêuticas completamente diferentes. O lipoma, o verdadeiro tumor de gordura, portanto, consiste em uma (ou várias) protuberância de gordura localizada, geralmente, entre a pele e a camada subjacente de músculo. Os lipomas apresentam crescimento lento e costumam ser inofensivos, ocorrendo em qualquer parte do organismo que possua tecido gorduroso, não somente pernas e braços. Raramente, podem ser cancerígenos. Algumas pessoas possuem mais de um e, na maioria das vezes não causa dor.

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O aparecimento de vários lipomas ocorre na lipomatose (CID E88.2), que não tem relação com o lipedema. Esta doença também é chamada de lipomatose simétrica múltipla, doença de Madelung ou adenolipomatose de Launois-Bensaude. Os nódulos causados pela lipomatose são conhecidos como “lipoma” e são pequenos tumores benignos feitos de células de gordura, que se acumulam principalmente na região do abdômen e das costas. A Lipomatose Múltipla Familial é outro transtorno genético da hipoderme, caracterizado pela formação lenta e progressiva de nódulos.

O lipossarcoma (CID C49.9) é o tumor raro de gordura que se inicia no tecido gorduroso do corpo, mas que pode facilmente se espalhar para outras partes moles, como os músculos e a pele. Lipossarcoma representa cerca 9.8% a 18% de sarcomas de tecidos moles, com a segunda variante histológica mais frequente destes tumores.

 

Lipoma ressecado (tumor de gordura)

Lipoma

Gordura do Lipedema

Gordura do lipedema

Portanto, algumas doenças do tecido gorduroso que poderiam ser consideradas tumores são: lipoma, lipossarcoma, doença de Dercum e outras, mas não Lipedema.

Entretanto, o problema não é apenas terminológico, e sim de compreensão e estigmatização de uma doença mal compreendida. Apesar de “tumor” poder se referir a doenças benignas e malignas, também é certo que é uma palavra que, por si só, causa temor para o leigo, afinal, ninguém quer um tumor crescendo dentro de si, seja ele maligno ou benigo. O que remete à sugestão da necessidade de retirada de um tumor. Quem tem um tumor, quer retirá-lo. Mas, e se não for um tumor de verdade? A psicologia humana é muito interessante, e, nas portadoras de Lipedema, muito abalada por anos ou décadas de descaso e acusações de obesidade e outras doenças infundadas. Portanto, o uso do termo “tumor” não é apenas um problema de nomenclatura, mas remete inconscientemente à sugestão da necessidade de extirpação instantânea da doença, o que não é, em nenhum grau, verdade. Passa a ser um desserviço piorando a estigmatização das pacientes pois:

  1. A cirurgia lipoaspiração não é curativa do Lipedema, é sim uma entre tantas ferramentas para minimização dos sintomas do Lipedema;
  2. A cirurgia lipoaspiração do lipedema não altera a causa principal da doença, que é a genética, hormonal e alimentar;
  3. A cirurgia lipoaspiração não exime a paciente da necessidade de fazer o tratamento conservador, e, o termo tumor, sugere que sua retirada elimina a doença por completo;
  4. A cirurgia não está indicada em todos os casos de Lipedema;
  5. A grande maioria da população com lipedema, 11% da população feminina está controlada em seus sintomas, sem a necessidade de cirurgia;
  6. A cirurgia não deve ser a primeira medida realizada no tratamento, principalmente na ausência de tentativa de tratamento clínico prévio;
  7. A cirurgia, na maioria das vezes, é financiada de forma particular, não sendo coberta pelo SUS ou planos de saúde, e, portanto, a grande maioria das pacientes não tem condições financeiras para realizá-la;
  8. A não realização de um procedimento visto erroneamente como curativo, impede a paciente com lipedema de progredir com as dezenas de técnicas gratuitas ou de baixo custo existentes;
  9. A ansiedade, muito frequente no Lipedema, tende a piorar, o que também agrava os sintomas do Lipedema;
  10. O lipedema é doença genética com alterações vasculares no sistema linfático influenciada por hormônios, alimentação e hábitos de vida.
 

A realização de cirurgia de lipoaspiração para tratamento do lipedema deve ser vista como uma ferramenta útil dentro do arsenal terapêutico para ajudar no controle dessa doença, pois, aquelas que realizam a cirurgia e não fazem o tratamento conservador invariavelmente voltarão a ter sintomas em pouco tempo.

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Alexandre Amato

O Dr Alexandre Amato é médico, professor de cirurgia vascular da Universidade de Santo Amaro (UNISA), e tem quatro especialidade médicas reconhecidas pelo MEC e respectivas sociedades: cirurgião geral, cirurgião vascular, angiorradiologista e ecografista. Formou-se na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e especializou-se em vários hospitais privados e públicos em São Paulo. Aprofundou-se em cirurgia vascular em Milão, no hospital San Raffaele da Università Vita-Salute. Quando voltou, fez seu doutorado em cirurgia cardiotorácica na Universidade de São Paulo (USP). Fundou a Associação Brasileira de Lipedema para divulgar conhecimento de qualidade às mulheres portadoras de Lipedema.

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